Nexz, Hwasa & Stray Kids: O dia de K-pop no Rock In Rio que mudou o olhar de seus criadores

Ultrapassando a casa de 130 mil pessoas, o dia 11 de setembro de 2026 se tornou inesquecível para um dos maiores festivais de música do mundo e para os fãs de K-pop, principalmente os da América Latina.

Por volta das 16h40, o NEXZ subiu ao Palco Mundo e deu início a um show que, com certeza, atraiu muitos olhares para um grupo ainda em sua fase inicial de carreira, tendo realizado seu debut em meados de 2024.

Formado por Tomoya, Haru, Hyui, Seita, So Geon, Yu e Yuki, os sete garotos incendiaram o palco com a energia de um grupo que já está na estrada há vários anos. A segurança demonstrada pelos integrantes diante de uma plateia daquele tamanho fez com que a pouca idade da carreira parecesse apenas um detalhe.

Trazendo músicas como “Beat-Boxer”, “I’m Him”, “Want More? One More!” e a tão esperada “Saucin‘” — qual recebeu dois bis seguidos —, o grupo rapidamente conquistou a atenção de uma parcela do público que ainda não conhecia profundamente seu trabalho. Mesmo entre aqueles que chegaram ao show sem familiaridade com a discografia, foi difícil não se deixar levar pela animação, pela entrega e pelo respeito demonstrado pelos membros ao país que os recebia.

Um dos pontos que mais chamou atenção foi o esforço dos integrantes em estudar a língua portuguesa. Eles fizeram questão de pronunciar frases completas e se comunicar diretamente com o público, criando uma proximidade que ultrapassava a relação tradicional entre atração e plateia. Existe algo especialmente significativo quando um artista se dedica a aprender algumas palavras da língua de quem está do outro lado do palco, é uma demonstração simples, mas que comunica cuidado e reconhecimento.

Às 19h em ponto, a solista Hwasa pisou no maior palco do Rock in Rio e deu seu nome e sobrenome.

Inicialmente estreante no grupo MAMAMOO, em 2014, juntamente com Solar, Moonbyul e Wheein, Hwasa iniciou sua carreira solo em 2019 e construiu, desde então, uma identidade própria dentro da indústria. Sua trajetória passou a atrair não apenas os fãs do grupo, mas também um fandom apaixonado por sua voz, sua performance e pela personalidade que imprime em tudo o que faz.

Ao descer até os fãs na grade, era possível perceber o carinho que resplandecia no toque das mãos de seus admiradores. Entre flores brancas que se tornaram parte do figurino e interações espontâneas, Hwasa parecia completamente à vontade naquele espaço.

Em determinado momento, a artista perguntou a uma das brasileiras como falávamos “cute” em português. A resposta, “fofa”, deu início à música de mesmo nome e deixou o público ainda mais envolvido pela maneira cativante e natural com que ela conduzia aquela troca.

Com sucessos entoados aos gritos pelos fãs, a Cidade do Rock ouviu “Twit”, “I Love My Body”, “Décalcomanie”, “HIP”, “Starry Night” e a tão esperada “Maria”. A música ganhou um significado especial em um país onde o nome é tão presente. Ao longo da apresentação, Hwasa entregou sensualidade, experiência, atitude e o empoderamento que se tornou uma das marcas de sua trajetória.

E então chegamos à madrugada de sábado.

Às 0h05, os headliners do quinto dia de Rock in Rio fizeram seu percurso ao redor do Palco Mundo, passando ao lado dos fãs antes de subir ao ponto mais importante daquela noite. O Stray Kids chegou ao Rio de Janeiro carregando também o vínculo construído com o público brasileiro durante sua passagem pelo país pouco mais de um ano antes.

Formado por Bang Chan, Felix, Changbin, Han, Lee Know, Hyunjin, Seungmin e I.N, o grupo transitou por diferentes momentos de sua discografia durante uma apresentação que foi esperada ao longo de meses por aquela multidão.

S-Class”, “DOMINO”, “MANIAC”, “THUNDEROUS”, “Bounce Back” e “Walkin On Water” foram algumas das músicas escolhidas e reproduzidas aos berros pelo público. “This or That”, “DIVINE” e “RUN IT” também envolveram os fãs que aguardavam pelo grupo desde a madrugada do dia anterior.

Entre hits e um Rio de Janeiro a 40 graus, os integrantes desceram do palco e foram para a galera, pulando, dançando e festejando uma conquista que pertencia a todos ali presentes. Muitas garrafas de água foram jogadas para cima e o show se transformou em um verdadeiro parque aquático — pelo menos para quem estava pertinho do palco.

A apresentação se estendeu para muito além da estrutura do Palco Mundo. Um coral em uníssono tomou conta da Cidade do Rock e mostrou a dimensão da conexão construída entre o grupo e seus fãs brasileiros. Uma plateia que conhecia as músicas, respondia aos integrantes, cantava cada verso e fazia questão de participar ativamente daquele momento.

Um dos pontos altos da noite aconteceu já nos minutos finais, quando um pedido compartilhado por todo o público finalmente foi atendido. Entoada aos berros, “Hall of Fame”, faixa do álbum “5-STAR”, lançado em 2023 e pouco performada pelo grupo ao longo de suas promoções e turnês, trouxe à tona a força do poder daquela audiência.

O pedido para que a música fosse apresentada no Brasil surgiu ainda durante a passagem do Stray Kids pelo país, no início de 2025. A b-side carrega referências a Neil Armstrong, Galileu Galilei, Shakespeare e outros grandes nomes que entraram para a história da ciência, da literatura e da tecnologia.

Para os STAYs, aquele momento era o resultado de uma mobilização iniciada muito antes de os integrantes pisarem no palco. Depois de um mutirão que ganhou força entre os fãs, a mensagem finalmente chegou ao grupo.

E, para a felicidade dos admiradores, os integrantes entenderam o recado.

A maior apresentação da noite terminou com a tão esperada “Hall of Fame”, enquanto milhares de pessoas ouviam ao vivo uma música que aguardavam há mais de um ano (ou anos). A escolha carregava ainda mais peso diante da própria mensagem da faixa: Eu escrevo meu nome nas estrelas agora, Deixando minha marca em toda a galeria.

Assim se encerrou o primeiro dia dedicado ao K-pop na história do Rock in Rio, e é difícil imaginar que ele seja o último.

NEXZ, Hwasa e Stray Kids chegaram ao Palco Mundo com propostas, trajetórias e estilos completamente diferentes, mas dividiram uma característica fundamental: a capacidade de transformar uma apresentação em experiência. Houve profissionalismo, preparação, coreografias elaboradas, sincronia, músicos e bailarinos trabalhando em conjunto e uma disposição evidente para criar uma conexão verdadeira com quem estava diante do palco.

Mais do que isso, houve público.

Um público que chegou cedo, que esperou durante horas, que conhecia as músicas, que cantou, que acompanhou cada movimento e que demonstrou, durante todo o dia, que o K-pop no Brasil já ultrapassou há muito tempo a ideia de um fenômeno restrito a um nicho.

Por isso, também é importante falar sobre a maneira como parte da imprensa escolheu retratar aquele dia.

Reduzir o público de K-pop no Brasil a uma plateia infantil e histérica é ignorar uma comunidade que movimenta grandes eventos, lota estádios, lidera rankings de plataformas como Spotify e Apple Music, aprende novos idiomas, viaja para acompanhar seus artistas e, em muitos casos, encontra na cultura coreana um incentivo para transformar a própria trajetória.

Existem pessoas que começaram a estudar coreano por causa de um desses artistas. Pessoas que fizeram intercâmbio, conheceram novos lugares, encontraram amizades e construíram projetos profissionais a partir de interesses que nasceram dentro desse universo. Existe uma dimensão cultural, econômica e social nesse público que não cabe na caricatura de adolescentes gritando por seus ídolos.

Da mesma forma, classificar apresentações de artistas asiáticos como mornas ou desprovidas de grandes produções exige ignorar elementos que estavam literalmente diante de mais de 130 mil pessoas. Os três atos apresentaram performances cuidadosamente construídas, coreografias complexas, sincronia precisa, bailarinos, design de telões e uma presença de palco capaz de sustentar apresentações em um dos maiores festivais do mundo.

Os próprios artistas também demonstraram, repetidas vezes, o quanto aquela relação com o público brasileiro significava para eles. As interações, os momentos de proximidade e a disposição em compartilhar aquele espaço transformaram o palco em uma via de mão dupla.

O dia 11 de setembro não precisa ser defendido apenas pelo tamanho da multidão ou pelo sucesso de vendas. Ele se sustenta pelo que aconteceu diante de quem estava ali.

O K-pop ocupou o Palco Mundo, reuniu uma multidão e mostrou que existe uma geração inteira consumindo música, cultura e experiências de maneiras que a mídia tradicional ainda parece ter dificuldade em compreender.

O Rock in Rio abriu espaço para uma cena que já havia conquistado seu público muito antes de receber o convite para estar ali. E esse público respondeu ocupando cada centímetro possível da Cidade do Rock.

Opinião é legítima, inclusive quando ela parte de alguém que simplesmente não se conecta com determinado gênero musical. O problema começa quando a percepção pessoal passa a ser utilizada para diminuir uma experiência coletiva que reuniu milhares de pessoas e uma produção profissional construída para um dos maiores festivais do mundo.

Resumi-los à própria percepção frágil e curta não é artigo opinativo, é desdém de quem não aceita que esteve e está errado.

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