Toda temporada, entre os animes que estão estreando, a indústria escolhe alguns títulos para ganhar remakes. Nos últimos tempos, Samurai X, Ranma 1/2 e Trigun são alguns dos exemplos de obras antigas que passaram pelo processo. Até Ghost in the Shell entrou nesse balaio, com um novo anime agora na nova temporada.

Entretanto, uma nova tática foi implantada na última temporada. As empresas vão cavucar o baú dos mangás cancelados e escolher histórias para transformar em anime. É uma aposta diferente. A obra já está encerrada, ou seja, já tem uma certa quantidade de capítulos. Porém, essas histórias acabam sendo apressadas demais, uma vez que o mangá foi cancelado abruptamente. Esse é o caso de Tocha Negra (Black Torch).

A segunda vida de Black Torch

Encerrado em 19 capítulos, reunidos em 5 volumes, Tocha Negra conta a história de Jiro Azuma, um jovem descendente de ninjas que consegue falar com animais. Seu mundo muda quando ele ajuda o gato Rago, que é, na verdade, uma entidade mística conhecida como Mononoke. Depois de morrer e ser revivido pelos poderes de Rago, Jiro acaba entrando em uma organização que caça outros Mononokes.

Já falamos um pouco dele por aqui, quando conversamos sobre mangás que valem a pena dar uma lida. E mantenho a minha posição. O mangá é um shonen de luta bem básico, que utiliza vários elementos de outros títulos, mas possui um charme próprio bem característico. Entretanto, a falta de popularidade entre os leitores japoneses (mesmo sendo bem avaliado internacionalmente), aliada a um ritmo descompensado entre narrativa e desenvolvimento de personagens, foi um dos pontos que contribuíram para o encerramento da obra.

Agora, a história pode ganhar uma segunda vida com o anime. Ele adapta todos os 19 capítulos em 12 episódios de uma maneira bem literal, sem muitas mudanças em relação ao que foi feito no mangá. Porém, o 100studio, estúdio responsável pela animação, faz um bom trabalho, trazendo uma qualidade bastante decente para a série. Isso faz com que fiquemos nos perguntando se esse anime terá sucesso suficiente para ganhar uma continuação. O que seria algo sem precedentes, uma vez que seria um material totalmente novo.

E olha que não é por falta de tentativa. Por aqui, em terras brasileiras, Tocha Negra foi um dos animes mais promovidos da temporada. Além de ter uma dublagem simultânea ao lançamento no Japão, era difícil não ver alguma propaganda do anime em locais como relógios de rua. Inclusive, os episódios finais foram exibidos em um evento em São Paulo, que teve a participação de dubladores, criadores de conteúdo e jornalistas especializados. E nós também tivemos a oportunidade de vê-los. Portanto, caso haja uma segunda temporada, não fique espantado.

O que achamos da temporada

Falando mais sobre o anime, posso dizer que gostei bastante do que vi. Como dito anteriormente, Tocha Negra é uma história simples, mas que tem um charme próprio. Sua base se apoia em clichês que vão fazer você se lembrar de outras obras. Jiro é um jovem encrenqueiro de bom coração, como Ichigo em Bleach. Quando ele entra na organização, um time de 3 pessoas é liderado por um cara que parece preguiçoso, como em Naruto ou Jujutsu Kaisen. E por aí vai.

Entretanto, é nesses entremeios que ele mostra suas qualidades. A dinâmica entre Jiro e Rago é muito boa. É outro clichê bastante comum, mas funciona muito bem para o charme de ambos. Ichika e Reiji fecham o elenco de apoio com características complementares e dramas pessoais próprios e curiosos, com o de Reiji sendo mais trabalhado nesta temporada.

Os coadjuvantes cumprem bem seu papel, com destaque para o avô de Jiro, Toshimasa Azuma, a faz-tudo Hana Usami e a mononoke Fuyo. Os vilões também cumprem seu papel conforme o necessário, mesmo que tudo pareça um speedrun de um plano maior. Amagi, por exemplo, tem o design certo para fazer sucesso entre cosplayers, mas sofre com a velocidade do roteiro.

Aliás, acredito que esse seja o ponto fraco dessa série. É possível perceber o momento em que o mangá está prestes a ser cancelado e surge a necessidade de fazer certos cortes para acelerar a história. Isso faz com que uma série de decisões tomadas fique no ar, sem tempo para ser desenvolvida. Entretanto, isso pode ser resolvido caso haja uma segunda temporada.

O design dos personagens, mesmo sendo simples, faz um bom trabalho. Junto da animação, o desenho consegue criar cenas memoráveis, principalmente na luta final, com o céu vermelho e tudo mais. Pena que, na necessidade de chamar a atenção, o anime acabe abusando de ângulos femininos complexos, para dizer o mínimo. É um tipo de desespero que esse anime não merecia.

Enfim, Tocha Negra é um shonen de lutinha clássico que conseguiu ganhar uma sobrevida com essa adaptação póstuma para anime. Seu potencial está lá, bem como várias pontas soltas. Porém, mesmo com uma adaptação decente, só o tempo dirá se essa história agora será alongada.

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