a imagem é o poster do kdrama Meu Ídolo da Netflix

Meu Ídolo série coreana da Netflix é boa? Vale começar?

Os quatro primeiros episódios do k-drama Meu Ídolo mergulham no lado mais cruel da fama, do fandom e da indústria do K-pop

Disponível na Netflix, Viki e Kocowa, Meu Ídolo (Idol I) estreia como um daqueles dramas que parecem um thriller judicial, mas rapidamente se revelam muito mais profundos. Em apenas quatro episódios, a série constrói um retrato duro, incômodo e emocionalmente pesado sobre idolatria, obsessão e desumanização, tudo embalado em um mistério criminal que funciona quase como pano de fundo para questões bem maiores.

Dirigido por Lee Gwang-young (Isso se Chama Amor) e escrito por Kim Da-rin, o drama aposta na mistura de tribunal, indústria do entretenimento e suspense psicológico, criando uma narrativa que questiona: até onde vai o direito do público sobre a vida de um ídolo?


Quando o fã encontra o réu

A história começa pelo ponto de vista de Maeng Se-na, vivida por Choi Soo-young (Girls Generation). Durante o dia, ela é uma advogada criminalista respeitada, conhecida por defender clientes impopulares com extrema frieza profissional. À noite, porém, Se-na é uma fã dedicada de K-pop, especificamente de Do La-ik, vocalista do grupo Golden Boys.

Essa dualidade é apresentada com inteligência: Se-na não é uma caricatura de fangirl, mas alguém que encontra na música um ponto de sobrevivência emocional. O roteiro deixa claro que o fandom, para ela, nunca foi romance, e sim refúgio.

Do outro lado está La-ik, interpretado com intensidade por Kim Jae-young. Apesar da imagem impecável nos palcos, sua vida fora deles é marcada por sasaengs, invasões de privacidade, ansiedade e uma agência que trata sua dor como dano colateral do lucro. O vazamento de seu número pessoal, a invasão de sua casa por fãs obsessivas e um colapso durante um fan meeting deixam claro que a fama, ali, é tudo menos glamourosa.

O ponto de virada acontece quando uma gravação vazada de uma discussão entre La-ik e fãs explode nas redes. O escândalo derruba seu desempenho nas paradas, e a resposta da agência é brutal: ídolos, segundo o CEO, perdem a humanidade no momento em que escolhem a fama.

No mesmo dia, após uma sequência caótica envolvendo um show solo, conflitos internos no Golden Boys e consumo excessivo de álcool, Ra-ik acorda ao lado do corpo de Woo-seong, seu colega de grupo. Ele se torna o principal suspeito de assassinato.


Justiça, culpa e o peso do passado

Quando Se-na aparece na delegacia e se oferece para defendê-lo, a série encontra seu eixo central: o confronto entre idolatria e ética profissional. A advogada impõe limites claros, ela não é uma fã ali, é uma defensora. Ainda assim, o roteiro não ignora o conflito emocional que isso gera.

À medida que o caso avança, La-ik perde tudo: advogado, agência, contrato, apoio público. Até seu próprio manager duvida de sua inocência. É nesse vazio absoluto que Se-na assume a investigação de forma independente, revelando falhas graves no processo policial e desmontando a acusação no primeiro julgamento, o que garante a liberdade temporária do idol.

Paralelamente, o drama aprofunda seus personagens com flashbacks duros. Descobrimos que Se-na sofreu bullying severo na adolescência e quase tirou a própria vida, interrompida apenas pela voz de La-ik cantando à beira de um rio. A relação entre os dois, portanto, não nasce do acaso, mas de uma conexão silenciosa que atravessa anos.

Enquanto isso, o promotor Byeong-kyun se revela mais do que um antagonista profissional: ele faz parte do passado traumático de Se-na. A rivalidade entre eles ganha camadas pessoais, expondo como estruturas de poder se perpetuam desde a juventude até os tribunais.


Meu Ídolo mostra o sistema como vilão

O quarto episódio amplia o foco e deixa claro que Meu Ídolo não está interessado apenas em responder “quem matou Woo-seong?”. A pergunta central passa a ser outra: como um sistema inteiro falhou com Ra-ik muito antes daquela noite?

A investigação revela uma cadeia de negligências:

  • uma agência que lucra com a vulnerabilidade emocional do artista;
  • fãs que confundem amor com posse;
  • uma polícia mais interessada em culpados fáceis do que na verdade;
  • uma mídia que transforma sofrimento em espetáculo.

La-ik, agora morando provisoriamente com Se-na, começa a se abrir sobre sua infância, sua relação abusiva com a mãe, o início precoce na indústria e a amizade com Woo-seong — talvez o único vínculo genuíno de sua vida adulta. O drama acerta ao mostrar que sua instabilidade emocional não é sinal de culpa, mas consequência de anos de exploração.


Atuações e tom da série

Kim Jae-young entrega uma performance surpreendentemente contida e realista. Seus ataques de ansiedade, paranoia e colapsos emocionais nunca soam exagerados. Já Soo-young constrói uma protagonista complexa, equilibrando frieza, empatia e dor acumulada com muita precisão.

O texto evita glamourizar o lado sombrio do K-pop. Pelo contrário: Meu Ídolo expõe stalking, exploração emocional, manipulação de imagem e a cumplicidade silenciosa do fandom, sem transformar isso em choque gratuito.


Veredito parcial

Mesmo com apenas quatro episódios, Meu Ídolo já se mostra mais interessado em discutir identidade, sobrevivência e humanidade do que em resolver um crime. O mistério segue importante, mas claramente não é o coração da história.

Com roteiro afiado, direção segura e atuações fortes, o drama provoca o espectador a refletir sobre o papel de fãs, empresas e mídia na construção e destruição de ídolos.

Se a série mantiver esse nível, não será apenas um bom thriller judicial, mas um dos retratos mais honestos e desconfortáveis da indústria do entretenimento coreano nos últimos anos.

3 thoughts on “Meu Ídolo série coreana da Netflix é boa? Vale começar?

  1. Oi Carol. Tudo bem? Gostei muito da sua avaliação sobre os primeiros episódios de Meu ídolo. Eu fiquei pensando também sobre a indústria de entretenimento infantil americana e acho que as questões psicológicas se encontram nesses dois universos. É impressionante como os jovens adoecem nessa indústria e como a mídia se aproveita dos artistas.

  2. Excelente analise👏🏼👏🏼Ate o ep 4 estou considerando um dos melhores dramas a abordar essa situação de “Fãs X Idols X Midia X interesses Comerciais bastante realista e séria. Com certeza nos faz e fara pensar(principalmente os asiaticos em geral), sobre o mundo do Entretenimento de uma maneira mais Humana.🙏🙏🙏

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