Novo k-drama da Netflix marca o retorno de Song Kang e aposta na intensa relação entre dois pianistas de mundos opostos para construir uma história sobre amizade, rivalidade e as feridas por trás do talento.
Quatro Mãos, Duas Sonatas poderia facilmente ser apenas mais um drama juvenil sobre dois prodígios disputando espaço no competitivo universo da música clássica. Mas os dois primeiros episódios mostram que a nova produção estrelada por Song Kang e Lee Jun-young está muito mais interessada em descobrir o que existe por trás do talento — e, principalmente, quanto custa sustentá-lo.
A série acompanha Kang Pi-o (Song Kang) e Choi Jeong-yo (Lee Jun-young), dois jovens pianistas que chegam à música por caminhos completamente diferentes. Pi-o cresceu cercado pelas melhores oportunidades, professores e instrumentos, enquanto Jeong-yo precisou praticamente abandonar o piano para sobreviver.
É justamente nessa oposição que o drama encontra sua primeira grande força.
Um começo que já anuncia a tragédia
Antes mesmo de explicar quem são seus protagonistas, Quatro Mãos, Duas Sonatas revela onde eles estarão alguns meses depois.
Em 2017, durante uma competição internacional em Praga, Pi-o toca piano com um dedo machucado até o sangue atingir o instrumento. Paralelamente, Jeong-yo é sequestrado, tenta escapar, é baleado e acaba caindo na água.
Não sabemos exatamente como aqueles acontecimentos estão conectados, mas sabemos que alguma coisa deu terrivelmente errado.
A escolha transforma toda a aproximação apresentada posteriormente em uma espécie de contagem regressiva. Não estamos simplesmente conhecendo o nascimento de uma amizade. Estamos conhecendo uma amizade cujo futuro aparentemente será marcado por violência, ressentimento e tragédia.
O segundo episódio reforça essa sensação ao novamente brincar com o futuro, mostrando Pi-o quebrando o relógio de Jeong-yo enquanto surgem lembranças de uma briga entre os dois.
A estratégia pode parecer melodramática, mas funciona justamente porque cria uma pergunta que acompanha todas as cenas mais felizes:
como esses dois chegaram até lá?
Pi-o tem técnica. Jeong-yo tem voz
É através do piano que o roteiro começa a responder quem são esses personagens.
Kang Pi-o foi construído para ser excelente.
Ele pratica obsessivamente, domina a técnica e acumula conquistas, mas parece incapaz de aproveitar aquilo que conquistou. Em uma das primeiras cenas, joga fora o prêmio que acabou de receber.
Por trás da arrogância existe um garoto desesperado por reconhecimento.
Seu principal objetivo não parece ser vencer competições, mas provar ao avô, o renomado maestro Kang Seung-woon (Jung Jin-young), que merece ser reconhecido por ele.
Por isso, talvez uma das avaliações mais dolorosas que Pi-o poderia receber venha de Do Hyun-soo (Kim Joo-hun): sua técnica é excelente, mas sua música não possui uma voz própria.
É aí que Jeong-yo surge como seu completo oposto.
Ele não teve os mesmos professores, oportunidades ou estrutura. Precisa trabalhar para sobreviver, carrega as dívidas e os problemas deixados pelo pai e chega à escola de artes através de uma bolsa.
Mas Jeong-yo possui justamente aquilo que falta a Pi-o.
Quando toca, existe emoção.
O segundo episódio nos ajuda a entender de onde isso vem ao mostrar suas lembranças da mãe ensinando piano. Para ela, tocar nunca parece ter sido apenas executar corretamente uma partitura. A música precisava comunicar alguma coisa.
Assim, Quatro Mãos, Duas Sonatas apresenta uma oposição bastante interessante: Pi-o aprendeu a dominar o piano; Jeong-yo aprendeu a senti-lo.
E nenhum dos dois está completo.
Privilégio e sobrevivência dividindo o mesmo piano
A diferença entre os protagonistas não aparece apenas musicalmente.
Quando Pi-o precisa lidar com os próprios problemas, ele discute com professores, enfrenta a família e continua tendo uma casa, um piano e uma rede de proteção à sua volta.
Quando Jeong-yo entra em conflito, ele pode perder tudo.
O segundo episódio deixa essa desigualdade especialmente evidente.
Depois de ser perseguido por colegas da escola, Jeong-yo perde o emprego em uma loja de conveniência. Posteriormente, quando os mesmos garotos destroem partituras que pertenciam à sua mãe e ele reage violentamente, sua permanência na escola também fica ameaçada.
Para Pi-o, o piano é uma obsessão.
Para Jeong-yo, poder continuar tocando é um privilégio que pode desaparecer a qualquer momento.
O interessante é que Pi-o começa a perceber isso antes mesmo de admitir que se importa com o colega.
Ele não enfrenta publicamente os garotos que atacaram Jeong-yo, mas recupera silenciosamente suas partituras e ajuda a escola a encontrar as imagens das câmeras de segurança que comprovam o bullying sofrido por ele.
O personagem que parecia incapaz de demonstrar afeto começa a fazê-lo através de ações.
Quatro mãos e a construção da intimidade
É quando Do Hyun-soo obriga Pi-o e Jeong-yo a preparar uma apresentação a quatro mãos que o título da série realmente começa a ganhar significado.
“Four hands” é o termo utilizado para peças em que dois pianistas tocam juntos no mesmo piano.
E dificilmente poderia existir metáfora melhor para essa história.
Pi-o e Jeong-yo precisam aprender a dividir não apenas o instrumento, mas ritmo, espaço e controle.
Para Pi-o, acostumado à busca individual pela perfeição, isso significa aprender a ouvir.
Para Jeong-yo, significa aprender a confiar.
Quando descobrimos que Jeong-yo sofre de medo de palco, Pi-o não tenta simplesmente obrigá-lo a superar o problema. Ele prepara o auditório com velas para diminuir a pressão da apresentação e posteriormente o leva para tocar na rua.
E é nesse momento que surge uma das ideias mais bonitas dos primeiros episódios.
Diante do medo de Jeong-yo, Pi-o oferece uma solução simples: não olhe para as pessoas. Olhe para mim.
A música deixa de ser competição e passa a ser conexão.
Pouco depois, os dois estão tocando diante de desconhecidos, recebendo aplausos e finalmente se divertindo.
Talvez seja a primeira vez que vemos Pi-o tocando sem tentar provar seu valor para alguém.
A química entre Song Kang e Lee Jun-young é o coração do drama
A Netflix descreve oficialmente Quatro Mãos, Duas Sonatas como uma história marcada por música, fraternidade, emoção e rivalidade — e os dois primeiros episódios deixam evidente que a relação entre Pi-o e Jeong-yo será o verdadeiro centro emocional da produção.
Song Kang funciona bem ao transformar a aparente frieza de Pi-o em uma espécie de armadura. Seu personagem parece permanentemente contido, como se até suas emoções precisassem obedecer a uma partitura.
Lee Jun-young oferece o contraponto perfeito.
Seu Jeong-yo é mais espontâneo e caloroso, mas a leveza desaparece rapidamente quando o personagem precisa enfrentar o abandono familiar, as dificuldades financeiras ou o trauma relacionado ao palco.
É justamente o contraste entre os dois que faz a dinâmica funcionar.
Pi-o tem tudo aquilo que Jeong-yo nunca teve.
Jeong-yo possui algo que Pi-o ainda não conseguiu aprender.
E os dois parecem fascinados, mesmo que inconscientemente, por aquilo que encontram um no outro.
A química entre os protagonistas já aparece como um dos aspectos mais elogiados nas primeiras avaliações da produção. A própria imprensa coreana destacou a maneira como Song Kang trabalha a necessidade de aprovação escondida sob a postura fria de Pi-o, enquanto Lee Jun-young aposta em uma interpretação mais contida para um personagem cuja relação com a música foi interrompida pela dura realidade.
A mesma lembrança pode significar coisas completamente diferentes
Existe ainda uma camada especialmente interessante na relação entre os protagonistas: eles já haviam se encontrado quando crianças.
Jeong-yo se lembra daquele momento.
Pi-o também.
Mas os dois aparentemente guardaram sentimentos completamente diferentes sobre ele.
Para Jeong-yo, aquela experiência e o dueto que tocaram juntos parecem fazer parte de uma lembrança afetiva.
Para Pi-o, Jeong-yo representa o garoto que conseguiu derrotá-lo.
É uma ideia poderosa porque mostra como uma mesma memória pode representar inspiração para alguém e ferida para outra pessoa.
Pi-o passou anos tentando alcançar a perfeição e conquistar o reconhecimento do avô. Encontrar novamente alguém que possui naturalmente a expressividade que lhe falta pode despertar admiração, mas também inveja e insegurança.
E nós já sabemos que, em algum momento, essa relação será destruída.
Primeiras impressões
Depois de dois episódios, Quatro Mãos, Duas Sonatas se mostra muito mais interessante quando deixa de falar sobre quem toca melhor e começa a perguntar por que cada um deles toca.
Pi-o toca para ser reconhecido.
Jeong-yo parece tocar porque a música é uma das poucas coisas que ainda o conectam a uma versão mais feliz de sua própria vida.
E quando os dois começam a tocar juntos, essas motivações também começam a mudar.
O drama certamente flerta com alguns exageros clássicos do melodrama — temos rejeição familiar, identidade paterna misteriosa, agiotas, bullying, dívidas, traumas e uma tragédia anunciada logo nos primeiros minutos. Será preciso observar se o roteiro conseguirá equilibrar tantas camadas sem transformar sofrimento em mero combustível narrativo.
Também existe uma suspeita que merece atenção: a relação entre Ji-hye e Do Hyun-soo deixa espaço para questionar se o pianista pode estar relacionado ao mistério envolvendo a identidade do pai de Pi-o. Por enquanto, porém, o drama ainda não oferece elementos suficientes para transformar essa possibilidade em algo além de teoria.
O que funciona muito bem é o coração da história.
O segundo episódio termina com Pi-o e Jeong-yo voltando juntos de metrô depois de tocar na rua, dormindo apoiados um no outro.
É uma imagem simples e quase tranquila.
Mas nós já vimos o futuro.
Sabemos que essas mesmas pessoas vão brigar. Sabemos que Pi-o carregará lembranças violentas envolvendo Jeong-yo. E sabemos que, enquanto um deles estiver tocando desesperadamente em Praga, o outro estará lutando pela própria vida.
Por isso, talvez a grande pergunta de Quatro Mãos, Duas Sonatas não seja qual deles se tornará o melhor pianista.
É descobrir em que momento duas pessoas que aprenderam a encontrar harmonia no mesmo piano começam a produzir dissonância.
E, principalmente, se depois de tudo ainda será possível voltarem a tocar juntos.

