Resenha – Ticket to Heaven

Há histórias que nos emocionam e outras que nos fazem refletir, mas também existem aquelas que permanecem conosco muito mais tempo além dos créditos finais. Ticket to Heaven é uma delas.

Ambientada em 1996, a série acompanha Tanrak (Fourth), um jovem seminarista que acredita que sua maior missão é viver de forma digna para reencontrar seus pais no céu. Sua fé é tudo o que lhe resta. Mas esse caminho começa a ser colocado à prova quando ele recebe a missão de acompanhar Barth (Gemini), um garoto rebelde, solitário e aparentemente distante de qualquer tipo de esperança. O que nasce dessa convivência não é apenas um romance: é um confronto devastador entre aquilo que lhes ensinaram e aquilo que seus corações insistem em sentir. 

Mas reduzir Ticket to Heaven a um BL seria ignorar a força de sua narrativa.  A série fala sobre culpa, vergonha, fé e amor de uma maneira profundamente humana. Ela não coloca religião e sexualidade em lados opostos apenas para criar conflito, mas também expõe como esse conflito nasce dentro das pessoas, alimentado por discursos, expectativas e pelo medo constante de decepcionar quem se ama — ou até mesmo a Deus.

Sob a direção de P’Aof, a história deixa de ser apenas ficção para se tornar um relato extremamente humano. Há algo de profundamente pessoal em cada escolha narrativa, como se o diretor estivesse transformando dores antigas em arte. O resultado é uma obra que ultrapassa a experiência individual e se conecta à realidade de milhares de pessoas que cresceram divididas entre a fé e a própria identidade. 

Em nenhum momento a série busca respostas fáceis. Pelo contrário: ela entende que algumas feridas não desaparecem simplesmente porque o tempo passou. Cada personagem carrega marcas do passado que moldaram suas escolhas, seus medos e sua forma de enxergar o mundo. No entanto, o enredo nunca os reduz aos seus traumas. O passado explica quem eles são, mas não determina quem podem se tornar. Existe crescimento, existe reconstrução e, principalmente, existe a possibilidade de romper correntes que pareciam eternas.

Grande parte dessa força vem do elenco.

Gemini entrega um Barth contido, vulnerável e profundamente humano. Sob a aparência de um jovem rebelde, existe alguém marcado por feridas que vão muito além do que é visível. Barth carrega marcas internas e externas de uma vida atravessada pelo preconceito, pela exclusão e pela tragédia que desestruturou sua família e o fez desacreditar na fé. Sua dor não se manifesta apenas nas palavras, mas também nos silêncios, na postura defensiva e na dificuldade de acreditar que ainda existe um lugar onde possa ser acolhido. Gemini constrói essa complexidade com enorme sensibilidade, fazendo de Barth um personagem que não pede compaixão, apenas o direito de existir sem que sua história seja definida pelo sofrimento.

Mas é impossível falar de Ticket to Heaven sem destacar a atuação de Fourth como Tanrak.

Sua interpretação é devastadora.

Fourth consegue traduzir o conflito de alguém que vive permanentemente entre a cruz e o amor. Cada olhar, cada hesitação e cada silêncio carregam uma batalha interna quase insuportável. Não é apenas um personagem descobrindo seus sentimentos; é alguém tentando entender se ainda existe espaço para Deus dentro de si caso escolha amar outra pessoa do mesmo sexo.

Entre tantos momentos memoráveis, a cena do banheiro, no segundo episódio, merece um reconhecimento especial. Sem depender de grandes discursos, Fourth constrói um dos momentos mais dolorosos da série. É uma sequência que atravessa o pecado, a liberdade e a vergonha em questão de minutos. A maneira como seu corpo oscila entre o impulso de aceitar quem é e a necessidade de sufocar esse desejo torna essa cena uma das representações mais honestas da culpa religiosa já vistas em uma produção do gênero. É um momento que conversa diretamente com inúmeras pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, que cresceram acreditando que existir era motivo de arrependimento.

Mas a obra também entende que histórias de libertação nunca são construídas apenas pelos protagonistas.

Os personagens coadjuvantes possuem importância real na narrativa, funcionando não apenas como apoio, mas como peças fundamentais na construção das diferentes formas de viver a fé, o amor e a identidade.

Entre eles, é impossível não destacar Tam Nattakorn, interpretando Tia Lek. Sua presença ganha ainda mais significado por ser vivida por uma atriz trans, trazendo uma camada de representatividade que transcende a ficção. No último episódio, Tia Lek entrega uma das mensagens mais bonitas de toda a série: amar a Deus e amar a si mesmo nunca deveriam ser caminhos opostos. Sua existência desafia a ideia de que pessoas LGBTQIAPN+ precisam escolher entre sua espiritualidade e sua identidade, oferecendo uma resposta delicada, mas poderosa, para uma dor compartilhada por tantas pessoas.

No fim, Ticket to Heaven não é uma história sobre abandonar a fé, mas sim uma história sobre abandonar a culpa. É sobre entender que o amor nunca deveria ser um castigo, que vergonha não é sinônimo de devoção e que ninguém deveria precisar destruir quem é para acreditar que merece o céu.

Mais do que um BL, Ticket to Heaven é uma história sobre humanidade. Sobre encontrar esperança em meio à culpa, acolhimento em meio ao medo e liberdade onde antes só existiam correntes. É uma obra delicada, dolorosa e necessária — daquelas que não apenas contam uma história, mas transformam quem a assiste.

Disponível na Viki!

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